
Florianópolis é reconhecida por seus elevados indicadores de desenvolvimento, inovação e qualidade de vida, consolidando-se como uma referência nacional. Mas, para além dos cartões-postais e dos espaços mais conhecidos da cidade, existe uma Florianópolis que nem sempre aparece nos guias de turismo: aquela dos morros, das comunidades e das periferias.
Foi com o propósito de conhecer essa realidade que estudantes do curso de Administração Pública da UDESC/ESAG participaram, ao longo do primeiro semestre de 2026, de um trabalho integrado desenvolvido em parceria com o Observatório de Inovação Social de Florianópolis (OBISF) e com o apoio de mentores do Project Management Institute (PMI). A iniciativa reuniu conteúdos de quatro disciplinas — Gestão de Projetos Públicos, Sistemas de Accountability, Sociedade Civil e Políticas Públicas e Gestão da Responsabilidade Socioambiental — e buscou aproximar os estudantes de organizações da sociedade civil e das realidades dos territórios onde atuam.

O grupo desenvolveu suas atividades em parceria com a Ação Social Arquidiocesana (ASA), organização responsável pela dimensão social da Arquidiocese de Florianópolis. Um dos projetos mantidos pela entidade é o Centro de Integração Social (CIS) Santa Dulce dos Pobres, localizado no bairro Vila Aparecida, na Capital. Criado há cerca de seis anos, no contexto da pandemia, o CIS reúne diferentes iniciativas sociais voltadas ao atendimento da comunidade.
Entre elas estão as Cozinhas Solidárias Dona Hilda e Ribeirão da Ilha, que juntas entregam cerca de 2 mil marmitas por mês à comunidade da Vila Aparecida e à população em situação de rua. O espaço também abriga o Ateliê Retalhos da Vila, que reúne mulheres da comunidade para atividades de costura, reaproveitamento e reforma de roupas.
A partir do contato direto com a organização, por meio de visitas, participação na produção e distribuição das refeições e da convivência com moradores e trabalhadores do território, os estudantes identificaram oportunidades de fortalecimento institucional relacionadas à transparência, à comunicação com a comunidade, à mobilização de parceiros e voluntários e à sustentabilidade das ações desenvolvidas.
Durante a imersão, também foram identificados desafios presentes no cotidiano da Vila Aparecida, como infraestrutura limitada, moradias localizadas em áreas de risco, desemprego e informalidade. Segundo o grupo, “é nesse contexto que o CIS Santa Dulce dos Pobres atua, fortalecendo a rede de proteção social e construindo respostas coletivas às demandas do território”.
Experiência amplia olhar dos estudantes

Para Mariana, uma das participantes do grupo, a experiência foi uma das mais especiais vividas por ela durante a graduação. “Poder estar em contato direto com uma organização que atua tão de perto com a comunidade ampliou muito o meu olhar sobre o trabalho realizado pelas cozinhas solidárias, sobre a importância daquela organização para as pessoas que atende e também sobre o impacto que ela gera em todo o seu entorno”, relata.
Ela também recorda o primeiro dia de atividades no CIS. “Foi um momento de muita integração com a equipe, de conversar com os voluntários, conhecer um pouco de suas histórias e entender melhor o trabalho que realizam todos os dias. Poder participar da produção das marmitas que seriam distribuídas depois foi uma experiência muito especial, porque conseguimos vivenciar, mesmo que por algumas horas, um pouco da dedicação que existe por trás de cada refeição entregue”, conta.
Ao final do projeto, os estudantes apresentaram o trabalho integrado na UDESC, em uma atividade que contou com a presença da assistente social do CIS Santa Dulce dos Pobres, Carla Guimarães.
Para Carla, a aproximação entre a universidade e a organização possibilitou uma troca de conhecimentos e experiências que beneficiou tanto a instituição quanto os estudantes. “A presença da academia nos espaços institucionais desperta para um novo olhar sobre o fazer profissional no CIS Santa Dulce, sob a ótica de quem está de fora, aliando a teoria da administração à prática realizada na comunidade da Vila Aparecida”, destaca.

Segundo a assistente social, a experiência também contribuiu para ampliar as perspectivas profissionais dos estudantes. “Por outro lado, os alunos que participaram desse processo também tiveram seus ganhos, ao terem a oportunidade de experimentar novas possibilidades de atuação profissional futura, seja no desenvolvimento de projetos junto às entidades da sociedade civil, seja na esfera pública, frente às realidades sociais desafiadoras”, afirma.
Carla ressalta ainda a importância da iniciativa para a ASA. “A ASA entende a grandeza desse projeto e se sente feliz por ter contribuído com a formação profissional dos futuros administradores públicos”, conclui.
Mais do que uma experiência acadêmica, a iniciativa proporcionou aos estudantes um contato direto com uma realidade muitas vezes pouco visibilizada da cidade. A imersão também permitiu transformar conhecimentos desenvolvidos em sala de aula em ações e reflexões voltadas às necessidades concretas da comunidade, aproximando a formação universitária dos desafios sociais presentes no território.




